terça-feira, 2 de abril de 2013

A aldeia vem à cidade!!!

Que é como quem diz: "vamos lá a juntar-nos que já faz falta uma festa!"...
 
Será em Maio (dia 25), quando as nuvens que pairam sobre Portugal e arredores já tiverem chovido tudo o que tinham para chover e as flores decorarem novamente os nossos caminhos - tudo favorece um grande dia de convívio e animação...
 
A aldeia vem à cidade!!!! ou melhor, à Terrugem, pois é lá o restaurante que escolhemos para um dia à moda da nossa terra - grande almoço, com os nossos sabores, a nossa alegria e o convívio de que todos gostamos e que de que vamos sentindo falta ao longo do ano. Começando às 13h00, a tarde será animada com música ao vivo, bailarico e brincadeira, cantorias e bons petiscos, sempre bem regados com serviço de bar - trazemos a Eira Nova até à capital... e sem hora de fecho, claro!
 

 
Contamos com todos!!!! Inscreva-se junto do seu agente do costume...
 
E até lá, vá ensaiando: o pezinho para a dança, a barriguinha para as comidinhas boas dos nossos convívios e a gargalhada... porque vai dar-lhe muito uso!
 
Até lá!

quinta-feira, 7 de março de 2013

O exame da 3ª classe

A minha mãe fez o exame da terceira classe em Alvares.
 

Terá falado dos rios de Portugal e seus afluentes, da falange-falanginha-falangeta, ou dos caminhos de ferro de Angola e Moçambique, também ainda território nacional, que teve de decorar na eventualidade de um dia lá se deslocar. Os rapazes seus colegas ainda os veriam destruídos pela Guerra em que também foram envolvidos, mas para ela nunca passaram de nomes ocos de significado.
 
Aprendeu, na escola velha, na Roda Cimeira, ao pé da Venda, com colegas que chegavam a vir dos Amieiros e das Cabeçadas, pelas barrocas cheias de água ou neve ou gelo. Diz hoje que devem ser 2 horas de caminho, mas para pés com seis ou sete anos não levariam tanto tempo. Talvez a neve e a geada ajudassem na descida dos pés calejados, uma vez que não há relatos de grandes esfoladelas.
 
Na escola velha, ao pé da Venda, havia uma casa das batas. O que eu acho giro, porque não consigo imaginar a aldeia invadida por 80 batas, principalmente porque a imagem  mais jovem que tenho das pessoas é por volta dos seus 40 anos.... Mas a minha mãe diz que as batas se sentavam 3 a 3 por carteira, espalhados pela sala de acordo com alturas e, mais importante ainda, pela classe que frequentavam, e no fim do dia ficavam todas penduradas na sala das batas.
 
A professora da 1ª e 2ª classe foi a Zulmira do Nascimento Rodrigues, de São Tomé. Ao que parece, seria boa utilizadora da régua e da cana, trazida pelos próprios alunos do caminho para a escola sob sua encomenda. Penso que tenha sido a esta professoa que o meu tio Carlos, já farto das mãos quentes, tenha prendido a régua no seu vai-e-vem interminável e tenha resolvido testar as suas propriedades aerodinâmicas num voo, pela janela, até ao telhado do Ti Franklim. Um olhar final de estupefação trocado entre os dois terá posto um fim ao episódio, e ele foi-se sentar para ouvir o resto da lição. Alguém terá reposto a falta no dia seguinte, mas parece que a determinação daquele instante o manteve a salvo ppor algumas semanas.
 
A terceira classe terá estado a cargo da professora do Casal Novo, Maria Isabel das Neves. No dia do exame, professora e alunos deslocaram-se em excursão até à Vila. A pé, claro, pois não havia outro transporte conhecido. Ao fim da manhã, comeu-se o almoço orgulhoso, feito e levado pelas mães naquela ocasião solene. Naquele dia, os seus filhos e filhas tornavam-se homens e mulheres sabedores e conquistavam um diploma que atestava o seu bem mais precioso, o saber. Porque naquele tempo, saber era de facto valioso, porque de facto se aprendia e porque isso era algo almejado. Este tesouro poderia ser a diferença entre se manterem na vida difícil do campo ou tentarem a sua sorte na cidade.
 
Começaram-se namoricos na escola. Sem as modernices que os tempos de hoje permitem, mas com a pureza daquelas terras. A forma como ela se mexia dentro do avental de peitilho feito da mais recente chita da venda chamava a atenção dele, e ela espreitava pelo canto do olho como ele fazia as coisas dos rapazes. Os namoros começavam depois, muitos nos bailaricos, onde duas modas dançadas de seguida pelo mesmo par davam azo a libertar as más-línguas.
 
A minha mãe nunca sonhou que casaria com o meu pai. Partilharam a sala de aula quando ela fez a 1ª e a 2ª classe, esta última por duas vezes por escrever Heriques. A professora ainda tentou aquilo que seria hoje chamado de "prova de recuperação": chamou ao quadro a Odete do Fundo do Vale que incluíu o "n" em falta no seu nome nas duas vezes que exemplificou. Mas, incapaz de explicar à professora que não via o que a colega escrevia, a minha mãe manteve o erro nos dois ensaios a que teve direito naquela oportunidade final que a professora lhe deu. E tudo se resolveu com "por muito que goste de ti, Adelaide, não te posso passar para a 3ª classe sem saberes escrever o teu nome como deve de ser". Só no ano seguinte a minha mãe descobriu o que fazia mal.
 
Naquele tempo, um diploma era um diploma e era um acontecimento. Mesmo que se tivesse de suportar, em pleno Junho, um vestido de fioco (espécie de lã), de manga comprida, feito durante a noite anterior. Estavam todos entre iguais, com a mesma dor de barriga e a mesma esperança suada, não pelo andar a pé, pela roupa desajustada ou pelos sapatos inexistentes. Mas pelo caminho feito até ali de esforço de estudar sem condições mínimas para tal. Ou materiais. Ou apoios. Ou compreensão.
 
A minha mãe fez o exame da terceira classe nesta escola, em Alvares. Como todos naquele tempo. E foi aprovada!
 
Um abraço.
 
PS - Caro João Antão, se não quiser que use a sua foto, por favor avise-me que a retirarei de imediato. Mas foi esta foto e os comentários que surgiram à volta dela no facebook que me levaram a finalmente escrever estas histórias. E outras dos próximos post...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O Pobre de Alveite

"Mas explica-me lá melhor isso do Pobre de Alveite", pedi eu, que não tinha apanhado parte da conversa. "O Pobre de Alveite... ora, o Pobre de Alveite era uma instituição!" concluiu a minha mãe. Com a naturalidade de quem conhece o assunto pela vida. Calei a gargalhada dentro de mim e mantive apenas o ar interessado: "então conta-me lá como funcionava essa instituição..."
 
O Pobre de Alveite era um homem. O seu nome não é lembrado, mas da figura ninguém se esquece. No almoço de família, recordou-se aquela personagem que passou pela Roda Fundeira anos a fio, sem pedir mais do que o que estavam dispostos a dar-lhe. Sem aviso de chegada, ou data de partida, três ou quatro vezes por ano, vinha com um sorriso e dormia onde lhe cediam um tecto.

Sabe-se pouco sobre ele. O que juntava, do que lhe davam, era para consumir ali, junto de quem o apoiava e "não para acumular em sacos como outros que por lá passavam" acrescentou a sogra. Às vezes, tinha para cozer duas chouriças, e dependia da cozinheira a sensatez de recusar a oferta tentadora de um extra para aquela refeição, zelando para que a dádiva fosse mesmo para ele.

Chegou a pernoitar no telheiro da Munha, no forno da ti Olinda da Venda, ou no Valedamego, na casa da Ti Lucinda. Parece que, nos últimos anos, escolhia mais este último porque dormir num quarto era melhor que em cima das capas do milho, ou no mato cortado para ser posto no curral. E ficava o tempo que queria, sem que o mandassem embora. E nem era esperado que fizesse algum trabalho em troca "porque era assim, porque ele não dava para trabalhar".

De onde vinha, se tinha família, se alguém o procurava ou esperava... não me souberam explicar. Não era importante, apenas as histórias que trazia ou que vivia e dava a viver. Sabia o nome de todos da aldeia e explicava bem a quem o queria ouvir o que cada um fazia por ele, ou por quem se cruzava no dia-a-dia. Sabia, e explicava sem pudor e sem pedido, a quem estava para o ouvir, sem censura ou sensatez. Apenas dizia o que havia para ser dito e pronto.

O Pobre de Alveite era, de facto, uma instituição. A aldeia conhecia-o. E a aldeia adoptou-o, ou não haveria o acolhimento fraterno em cada casa, a partilha do pouco que havia (ou não), a disponibilidade para que dormisse sob as mesmas telhas. Da caleira, claro. E ele ficava. E parecia sentir-se bem. Até um dia acordar e seguir viagem para a próxima aldeia que o acolhia. Ao que parece, todos ali à volta conheciam o Pobre de Alveite. E todos, juntos, eram o seu suporte social, num tempo em que não havia Banco Alimentar, IPSS ou subsídios que lhe pudessem valer. A terra, a minha terra (e as restantes à volta), assumiam o cuidado do Pobre de Alveite como se ele fosse seu e devesse ser cuidado na medida das capacidades que tinha, sem medos de castigos supremos ou anseios de recompensas divinas por este acto. E é este cuidar dos nossos que me parece tão natural nas terras, que me orgulha tanto, que é tão imperfeito e tão imprescindível, tão natural e tão em falta hoje. O cuidar porque era isso que se devia fazer. Porque era o Pobre de Alveite e ele era assim.

Um abraço.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Petiscos da minha terra

Há dias fiquei cheia de inveja de alguém que publicou no facebook "acabei de fazer broa, agora estou a comer broa quente com manteiga, alguem é servido????". Grrrrrrrrrr!

Pois que franzi os olhos à Natália Domingos (a autora da gracinha) enquanto sentia aquele cheiro meio adocicado e seco... e vi, naquele momento, a manteiga a derreter-se com o calor da broa cortada a murro à boca do forno, aquele ficar translúcida e escorregar no miolo amarelado... huuuuummmmm!, que me soube tão bem!

Os petiscos da minha terra... de cada vez que lá vou, tenho como certo que vai haver petisco. Onde, quando, com quem... isso são questões a resolver na altura. O porquê está sempre respondido: porque nos apetece, porque faz parte de ir à Roda Fundeira fazer um petisco com quem lá está e passar umas horas a partilhar risos e lembranças, sonhos ou planos e até lágrimas, dependendo para onde estão os humores virados. Mas uma coisa é certa: broa, queijinho, um chouricito ou farinheira, nos dias mais afortunados, um bolo de carne ou cebola (o meu favorito!), uma boa pinga ou aguinha da fonte... isso é que não pode faltar!

Dizem que os portugueses fazem a sua vida à volta da mesa... para mim é impossível dissociar as minhas lembranças da Roda Fundeira desta vida à volta da mesa e mesmo à volta do forno. Desde as refeições preparadas na fogueira, na panela de ferro ou nas de alumínio penduradas na trempe, do fumeiro, dos tabuleiros no forno ou das batatas e cebolar assadas no arame, das couves aferventadas com broa por baixo, da sopa de feijão... só nunca me convenci com a cabidela ou o sangue do porco ou mesmo o arroz de fissura. Que me desculpem os apreciadores, mas vejamos as coisas assim: mais fica para vocês!!! :-)

Não vivo na Roda Fundeira, mas tenho pedaços dela na minha vida diária. Tento replicar petiscos, mas resultam muito melhor lá. E às vezes também consigo fazer inveja aos meus amigos lisboetas quando lhes descrevo este ambiente e os sabores da broa acabada de fazer, molhada no azeite com alho do bacalhau no forno a lenha...Sim, Natália, eu também gosto de lhes fazer inveja, confesso! e de lhes ver no rosto aquele ar de "também quero"...


No outro dia, no entanto, foi a minha colega Cristina que me levou até à aldeia por momentos. Sendo da Portela da Cerdeira, a avó Fernanda (dela) também conhece a receita dos "farta rapazes", uns bolos simples de ovos, farinha, açucar e gordura, que nos deliciam à dejua ou à merenda. Pelo menos era o que fazia com os "bolinhos da ti Prazeres", maneira como conheço os ditos. O meu avô António levava sempre dois ou três, embrulhados no lenço engomado, dentro do bolso da samarra quando ia guardar o seu rebanho de cabras e ovelhas. E eram tão bons!!!! E ainda são, quando os faço por terras mais a sul, mas lá... lá têm outro gosto.

Um abraço.
(esta foto foi roubada, como podem ver pela fonte, porque vergonhosamente não tenho uma minha!!! Tenho de fazer uma fornada e tratar disso...)

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Feliz Ano 2013!

Já é dia 4 de Janeiro. Este ano ainda é novo, mas já tem 4 dias. Quer dizer que, se de uma pessoa se tratasse (e pensando numa esperança média de vida de 80 anos) teria quase meio ano de vida...
 
Desta vez fiz diferente: foram poucas as pessoas a quem desejei antecipadamente um feliz ano, embora retribuísse todos os votos que me chegaram.
 
Agora, que chego a dia 04, parece-me que já tive tempo suficiente para achar que os meus votos estão desligados do torbilhão de sorrisos, simpatias e boas-vontades sazonais, acompanhados de presentes ou lembranças comprados em massa, sem se pensar (e às vezes até sem saber) a quem se destinam. Nas redes sociais choveram mensagens pré-feitas - algumas bem bonitas, diga-se de passagem, por todo lado os pais Natal continuam a subir edifícios em bando, ouvem-se reclamações das Ceias de diferentes consoadas, das conversas das festas, dos costumes das famílias que se encontram nestas alturas, das desatenções (ou atenções excessivas) de alguns para outros. Foi o Natal e o Ano Novo.
 
Claro que desejo alto e bom som "Bom Ano!" quando encontro pessoas de quem gosto e a quem quero desejar um bom ano. Mas, a cada ano que passa, sou mais relutante a entrar neste espírito do "É Natal, vá lá..."para tudo-e-qualquer-coisa-que-apeteça. Durante os outros 11 meses do ano (10 nos anos fartos em que o Natal começa no final de Outubro), também precisamos do tudo-e-qualquer-coisa-que-apeteça e não há qualquer problema em dizer que não porque... não é Natal.
 
Lá em casa houve reunião familiar, árvore de Natal, postais de Natal, doces de Natal, festa de fim-de-ano, champagne e alegria da quadra festiva. Até se falou da crise (claro!!!) mas porque nos apeteceu, não porque nos foi imposto pelos noticiários, programas ou campanhas da época, e para rirmos um pouco desta loucura que vivemos e desse riso tirarmos mais força para continuar mais um ano de dificuldades.
 
Lá em casa foi Natal... porque estivemos com os nossos mais queridos (os que puderam estar, claro) e porque fizemos para eles paparoca da boa e porque nos rimos com eles, os mimámos e deixámos que nos mimássem. Porque é este o gosto do Natal lá de casa. E também houve presentes e lembranças, mas para poucos e a pensar neles, entregues com carinho pelos mais novos (super excitados com o seu papel de Pai Natal, que sabem que não existe porque somos nós que compramos as prendas juntos e as embrulhamos para oferecer, porque gostamos). E a grande resolução de Ano Novo é... prolongar o Espírito de Natal por todo o novo ano!
 
Por isso, para todos vós, porque hoje já é dia 4 de Janeiro e é mesmo sentido,
 
... que o Espírito de Natal se prolongue por 2013!!!!
 
Um abraço.