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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Hoje é dia de água abençoada...

Hoje é dia de tomar banho. 
Ao que parece, o S. Pedro tem água benzida todo o dia. Diz a minha mãe que dava banho ao gado antes de as meter. No curral, entenda-se. Ou na Buraca da Moura ou na Foz Palheiros, conforme o local do pastoreio e o caminho de regresso à Munha.

Mas mesmo os Santos terão as suas diferenças de estatuto: o S. João também tem a água benzida mas só até ao nascer do Sol. Seria para lavar a alma ao sair do bailarico e antes de iniciar o exigente trabalho do campo.

Seja como for, hoje demos bom uso a este provérbio e viemos a banhos. Ficaremos assim abençoados para o ano inteiro. E abençoados faremos menos disparates, seremos mais atentos ao que e a quem nos rodeia, seremos melhores. Ou, pelo menos, seremos os mesmos... mas abençoados!


Um abraço.

sábado, 7 de junho de 2014

A Herdade de Alvares esteve no Fórum Lisboa

Não sabia que me iria ver nestas andanças. Mas o que é verdade é que gosto disto!

No dia 31 de Maio a Herdade de Alvares esteve no Fórum Lisboa. Quem diria... Organizou-se uma Sessão Histórico-Cultural, na continuidade das Comemorações dos Forais de Alvares. Contámos com um painel de oradores privilegiado! 

  • O Doutor José Manuel Garcia, que nos falou sobre o Foral da Herdade de Alvares e o contexto em que surgiu, de entre todas as inovações que D. Manuel I imprimiu no reino;
  • A Professora Doutora Regina Anacleto, grande estudiosa da nossa região e conhecedora de muitos dos seus "segredos", falou-nos sobre as memórias de Alvares e dos seus monumentos, de alguns equívocos comuns e de mistérios ainda por resolver...
  • O Dr. Nuno Barata-Figueira, com as notas genealógicas da Herdade de Alvares, que nos falou sobre princípios básicos da investigação em genealogia e ainda nos deu a conhecer os nomes originários da nossa região. Claro que fiquei com vontade de saber dos meus!!!
  • O nosso autor, António da Fonseca, reapresentou o livro 'Herdade de Alvares - Forais e sua História', desta vez focando mais a necessidade desta obra, os grandes achados ao longo da pesquisa e as questões que se formam depois de começarmos a conhecer melhor a história da nossa zona. E que ficam para responder em próximas obras...
  • O Professor Doutor Carlos Poiares, que realizou a sinopse da sessão, salientando as grandes perguntas que se levantam de cada uma das intervenções, ligando-as em génio e trivial, questionando para onde nos dirigimos se já fomos tão grandes no passado e estamos em tempo de sermos tão pequenos.
A sala começou a encher cedo. As nossas expectativas foram superadas!



Na pausa cultural, contámos com o Mestre Silvestre Fonseca, (re)conhecido mundialmente na sua arte...encantamento de plateias com a simplicidade aparente de colocar a sua guitarra a falar connosco. Foi muito interessante saber (confesso a minha ignorância) que um cortense chegou tão longe...é bom!!! 

Durante a tarde foi possível ver dois filmes promocionais - de Alvares e da Pampilhosa da Serra - que fazem juz ao potencial turístico da zona, ainda não completamente explorado. Foi ainda possível adquirir livros de vários autores da região e artigos promocionais variados das comemorações dos 500 anos do Foral da Herdade de Alvares.

Contámos com a presença de mais 200 pessoas, entre as quais algumas representantes de importantes entidades da região, entre autarquias locais, associações ou imprensa regional. Foram feitas intervenções no final, poucas mas demonstradoras da vontade que ainda há em não deixar a nossa zona desaparecer. Foram feitos agradecimentos vários, por várias pessoas. Enfeitaram-se paredes com imagens da região (não tantas quantas queríamos, problemas técnicos boicotaram os nossos intentos) e com algumas bandeiras, as que puderam estar presentes. Gostámos particularmente que se deslocasse um autocarro da Freguesia de Alvares para o evento, cheio de vontade de ver a Herdade na capital.








Foi, senhores, uma tarde muito bem passada, que me encheu de orgulho pela nossa região, por aquilo que temos e muitas vezes desconhecemos, por de alguma forma estar a contribuir para a sua preservação. A nossa terra é linda!!!! E ficou tão bem no Fórum Lisboa!!!

As fotos são poucas. Confesso que não consegui dedicar-me à reportagem, até porque havia quem estivesse bem mais habilitado a fazê-lo do que eu, como se pode ver em várias páginas do facebook (obrigada, João Antão!). Mas, para quem foi, sei que será para não esquecer.

Até à próxima.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Livro "Herdade de Alvares - Forais e sua História"


Dia 2 de Maio foi um dia atarefado na Junta de Freguesia de Alvares. Começaram a entregar-se os livros “Herdade de Alvares – Forais e sua História”. A curiosidade das pessoas era notória. Os livros cheiram a novo e as folhas fazem aquele som de descolar de quando as viramos pela 1ª vez.

Começou a ler-se logo ali ao lado, na esplanada. A Comissão Organizadora das Comemorações dos Forais está orgulhosa desta obra. Imaterial, como se diz agora, mas não menos valiosa por isso. Será com a obra imaterial que regamos as nossas raízes, e será apenas destas que poderá nascer a vontade de realizar a obra material. A tal, mais visível.

Este livro, escrito por António da Fonseca, contou com a colaboração de muitos outros naturais e descendentes da Herdade de Alvares, das suas várias povoações como Amioso do Senhor, Simantorta, Roda Fundeira. Bebeu de outros escritos já existentes sobre a nossa região (Alvares, Cortes, Machio, Portela do Fojo) e dos conhecimentos académicos de Professores que se dedicaram à investigação sobre este tema. É variado, de fácil leitura e, como o autor gosta de dizer "é um livro de História para não historiadores".

Acompanhar o nascimento de um livro é, para mim, uma honra. O trabalho que deu ficará apenas para quem o fez, sendo difícil de o imaginar quando não se está envolvido. Aqui ficam imagens da recta final, de quando fomos à gráfica ver o início do "parto"...







O pai e dois enfermeiros babados. Outra enfermeira registou o momento. Estava quase. E ainda tão longe...


O livro não pretende ser definitivo. Pretende antes ser um ponto de partida para novas investigações que preferencialmente culminem em novas descobertas, como aconteceu com esta. Pretende, fundamentalmente, espevitar a discussão, a troca de opiniões, o pensar na nossa região, no que já foi  e no que poderá ser. 


Muitas colectividades associaram já os seus eventos a estas comemorações e muitas mais poderão ainda fazê-lo se assim o desejarem. É certamente o que deseja a Comissão Organizadora e bastará apenas comunicar com a Junta de Freguesia de Alvares. Como outro elemento da Comissão Organizadora gosta de dizer "Todos somos poucos". 

Venham daí... vamos festejar a Herdade de Alvares da qual a Roda Fundeira e Relva da Mó fazem parte!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Herdade de Alvares - Forais e sua História

Amigos da Roda Fundeira e Relva da Mó,
Hoje temos o prazer de vos apresentar uma obra feita por gente da nossa terra, que fala da nossa História e que certamente ficará na história!

Deixo-vos a mensagem da Comissão Organizadora das Comemorações dos 500 anos de doação do Foral Manuelino a Alvares, a qual a Comissão de Melhoramentos da Roda Fundeira tem o prazer de integrar.

Leiam e reservem... o livro, e o dia para a festa! Este ano é em graaaaande!!!

Caros conterrâneos / Caros parentes,
No âmbito das comemorações dos Forais da antiga Herdade de Alvares - 500 Anos do Foral Manuelino e 733 Anos do Primeiro Foral - está a ser editado um Livro, de capa dura, com cerca de 250 páginas a cores, muito rico de imagens, com factos e dúvidas sobre a nossa bela região. A sua apresentação terá lugar dia 4 de Maio em Alvares, aquando das comemorações dos 500 Anos do Foral Manuelino. O programa do evento de dia 4 de Maio, em Alvares tem início às 10:00 com uma arruada, seguindo-se, às 11:00 missa na Igreja de S. Mateus, terminando com um almoço volante para os presentes. Antes, dia 3 Maio, pela manhã, irá ser realizado um passeio BTT, pela nossa bela região, com muitas descidas e poucas subidas, com início junto ao Casal Novo e terminando com almoço na Chã de Alvares, passando pelo Machio (só para os mais resistentes).

A denominada Herdade de Alvares abrangia a actual freguesia de Alvares e partes das actuais freguesias de Portela do Fojo e Machio e também parte da Freguesia de Pessegueiro.

Certos que esta obra será do vosso interesse e de forma a possibilitar a edição de um número de exemplares ajustado às reais necessidades, decidiu a Comissão Organizadora das Comemorações dos Forais da Herdade de Alvares, possibilitar a Pré-reserva do referido livro, incluindo também um desconto nesta fase e até 10 de Abril 2014.

Para efectuar a pré-reserva do Livro deverá ser enviado cheque ou Vale Postal no valor de 25,00 Euros, para a Junta de Freguesia de Alvares, Rua Dr. Jaime Rebelo da Costa Arnaut, 5 - 3330-140 Alvares e fazer a confirmação do referido envio por e-mail (jfalvares@sapo.pt) ou telefone (235587384).

A Comissão Organizadora das Comemorações agradece a divulgação desta informação a outros possíveis interessados!

Um Abraço!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

500!

500 é um número bonito. É redondo. Cheio. Imponente. Grande. Importante.

Em anos, representa muita vida. Muito nascimento, muita morte, muito casamento, muito trabalho. Muita decisão, muita lei, muita disputa, muito consenso. 

Muita união e muito afastamento. Muita indecisão. Muito deixar para depois. Muito "já vemos". Muito "um dia". Muito "já não".

Representa muito. De bom, de mau, de assim-assim, de nem-por-isso.

Este 500 é um número bonito. Guarda nele muita coisa. Guarda dele muita vida. A vida da nossa região. A nossa vida.

Tenho aqui dito que este ano é de festa. É de muitas festas!!! Comemora-se este ano os 500 anos da doação do Foral Manuelino à Herdade de Alvares. 

Esta é a imagem das comemorações: a ponte Manuelina reflectida sobre as águas ribeirinhas, as estrelas do brasão da Quinta dos Padrões. A Herdade de Alvares era imensa. De campos e de gentes. De vontades.

Vamos festejar?

Um abraço!
PS - Nós, na Roda Fundeira, temos um ano em cheio: 500 anos da doação do Foral à Herdade de Alvares e 80 anos da nossa Comissão de Melhoramentos... promete!

sexta-feira, 28 de março de 2014

Teimosias, escreveu ele!

Gosto de encontrar pessoas novas, interessantes, inteligentes. Gosto quando essas pessoas são também motivadas e se empenham nas mesmas causas que eu, quando podemos debater assuntos diferentes, quando aprendo alguma coisa.

Não sei de heráldica, de brasões, dos significados. Mas esta semana aprendi umas coisas...

Este é o brasão da nossa freguesia. De todas as pertencentes ao concelho de Góis, a de Alvares é a única que tem quatro torres no seu brasão, à semelhança de Góis.

A lei é de 4 de Abril de 1930. Por parecer compulsório da secção de heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, a Direcção Geral da Administração Pública obrigou as comissões administrativas das Câmaras Municipais a legalizar os brasões dos municípios, que já existiam, mas que careciam de ser sistematizados e oficializados. Ou mesmo actualizados, dada a disparidade entre a data da sua criação(alguns com centenas de anos) e a evolução que a região sofrera entretanto.

A regra em vigor é de que freguesias urbanas ou povoações simples sejam representadas por uma coroa mural de três torres. Quatro torres indicam uma vila, como é o caso de Alvares.

As cidades, pela sua grandeza, serão representadas com cinco torres na sua coroa mural que será de prata ou, no caso da capital do país, de ouro. De resto, tudo tem significado: cor, forma, partição do fundo, elementos colocados...

Seguindo o link que me foi enviado sob o título bem-humorado "Teimosias", Vexiloloxia e Heráldica Portuguesas (Wikipedia, artigo revisto) descobri que a heráldica portuguesa tem sido utilizada, pelo menos, desde o séc. XII (11...), mas, surpresa das surpresas, tem os seus fundamentos mais claros no reinado de D. Manuel I. E este rei já me diz qualquer coisa...

Lembro-me de gostar muito da disciplina de história, nos tempos de escola, mas isso já foi há muito tempo. Lamentavelmente, nas limpezas de primavera, o meu cérebro lá terá arrumado o conjunto de conhecimentos que adquiri na altura (que adquiri! os meus testes assim o comprovavam!) numa qualquer gavetita mais fundeira a que acedo com dificuldade. Pouco me lembro, confesso. 

Para escrever esta crónica (e mais uma ou duas coisitas que serão surpresa) li um pouco sobre o reinado de D. Manuel I, O Venturoso. Teve a sorte (?) dos tempos serem bem diferentes dos actuais e governou Portugal em franca expansão marítima, em tempos de riqueza e opulência. Mas, pelos registos, não se limitou a esbanjar a riqueza que crescia quase sem esforço: organizou, planeou, legislou. Reformulou. Renovou. Deu força e estabeleceu bases comuns ao já existente, definiu, para que todos se entendessem. E permitiu e potenciou o crescimento.

D. Manuel I, O Venturoso. Tenho a impressão que vos vou continuar a falar dele...

E, uma questão se levanta - o brasão de Alvares ostenta uma coroa mural de quatro torres, equiparável, na nossa região, à de Góis. Acrescento, de sobrolho franzido, em ar intrigado... huuuummmm!?!

Obrigada, JBH!!!!

Um abraço.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Comissão de Melhoramentos de Roda Fundeira - 80 anos!

Fez hoje 80 anos. Assim o diz a acta lavrada do encontro citadino de 13 conterrâneos determinados em contribuir para o desenvolvimento local. Se estivéssemos na América, talvez lhes chamássemos "Pais Fundadores". Aqui, são os Sócios Fundadores da Comissão de Melhoramentos da Roda Fundeira.

Aos 11 dias do mês de Fevereiro de 1934, no Beco do Chanceler, em Lisboa, juntou-se um grupo de pessoas e 13 foram os nomes registados na constituição dos corpos sociais da CMRF. A missão era clara: “se destina atrazer a agua potável para abastecer a referida povoação“. Foi assim que escreveram.

Eles foram os primeiros a arregaçar as mangas. E o povo da aldeia arregaçou-as com eles. E, melhor de tudo, mantiveram-nas arregaçadas depois de cumprida esta missão, este primeiro objectivo de muitos.


Aos 13 dias do mês de Fevereiro de 1934 foram registados os estatutos da CMRF, os mesmos que se mantêm até hoje. 80 anos podem retirar-lhes actualidade, mas acrescentam-lhe valor pela riqueza de espírito neles contida em tempos complexos. Começou ali uma história repleta de estórias. Feita de pessoas, com tudo o que faz delas pessoas. 

80 é um número bem redondo, cheio, gordo. É bonito. É de orgulho. 

E ainda cresce. A cada dia que um de nós pensa "e se..." e também arregaça as mangas, quer o nome fique registado no livro de actas ou não. Todos damos quando voltamos à nossa aldeia, quando arrumamos a nossa casa, quando limpamos o nosso quintal ou a nossa testada. Quando vamos à festa ou ao almoço. Quando fazemos a festa ou o almoço. Quando mergulhamos. Quando rimos juntos, petiscamos juntos, bebemos juntos, sonhamos juntos. Quando continuamos juntos a construir uma aldeia de casas e campos, de ideias e lembranças, de planos.

Todos contribuímos, ou podemos contribuir. É só querermos. É só continuarmos a querer. 

José Joaquim Coelho    Herculano Henriques     José Maria Lopes    António Maria Pedro

Manuel Henriques Estevam   Manuel Lopes   Artur Lopes  João Joaquim Coelho  João Lopes Bernardo

António Joaquim Coelho     José Maria Barata      António Tomás    Manuel das Neves

Eles foram os primeiros. Muitos lhes sucederam. Vamos continuar esta obra?

Parabéns Comissão de Melhoramentos de Roda Fundeira. 
Parabéns a todos os Rodafundeirenses, Relvadamodenses e muitos amigos que ao longo desta vida se envolveram e gostaram.

Vamos festejar?
Um abraço!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Lá se foi o Santiago...


Lá se foi o Santiago... E a voz dele assumiu, com simplicidade, a tristeza que o rosto dela tentava disfarçar.

Sentavam-se naquela rocha como em muitos dias antes e alguns depois daquele. Partilhavam a arte de pastor há muitos anos dos poucos das suas vidas. Não podiam chamar-se amigos, porque os tempos não o permitiam, mas cresceram a brincar juntos. E por isso ele sabia que o Santiago lhe fugia todos os anos.

Em Julho, o verde daquela calçada do Vale das Colmeias trazia a boa-nova da arca cheia, da broa garantida. Mas, a 24, trazia também à minha mãe a desilusão de trocar novamente a romaria pelo trabalho do campo. Aquela era a data em que, saído de nenhures, um vento vespertino visitava a dita calçada para festejar o vigor do verde milho... e derrubá-lo todo à sua passagem.

As pequenas maçãs amarelas, as maçãs do Santiago, ficariam por provar, novamente. As razões entre Amieiros e Mestras seriam tiradas sem que as pudesse avaliar, se naquele ano lhe aprouvesse. O bailarico seguiria, imperturbável pela sua ausência anual, costume mantido pela visita pontual do vento, sempre na véspera do dia da Festa do Santiago.

Ó minha mãe, ela diria ao chegar a casa, o milho da calçada ficou todo no chão. E, no lusco-fusco da hora tardia, ouviria a resposta já antecipada dos anos anteriores, ora... então amanhã temos de lá ir levantar o milho. Com os anos, foi-se resignado ao cereal derrubado e conformando com as alegrias contadas por quem ia.

Mas desta vez não iria haver desculpa. Engoliu o nó da garganta e decidiu-se a derramar pinheiros para especar o milho. Ó minha mãe, ela diria ao chegar a casa, o milho da calçada ficou todo no chão. E, no lusco-fusco da hora tardia, ela iria ainda acrescentar mas já o espequei! E talvez depois até fosse capaz de dizer e amanhã,vamos a que horas

Naquele ano, ela conseguiu ir ao Santiago... e foi já lá, na roda do fado, ao som da concertina que alguém levou, que foi capaz de se rir com o destino do milho, ditado anualmente pelo vento agendado para aquele dia.


Um Abraço.
PS - a minha mãe foi ao Santiago mais vezes. Mas algumas vezes a minha avó Emília escolhia colocar os carvalheiros no milho em vez de ir à festa... e isso ficou-lhe.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Está a guieira na serra

Geralmente era ao jantar. Entre uma garfada e outra, alguém anunciava "hum! Está a guieira na serra..." E eu descolava os olhos da televisão para constatar com tristeza aquilo que costumava significar fim dos banhos. 

A guieira é um vento brando e frio (dicionário Priberam da língua portuguesa, versão on-line para não dar muito trabalho a ir à prateleira). Estava na serra porque a acompanhava uma névoa esbranquiçada que se aconchegava no seu topo e que eu podia observar do meu lugar à mesa. Vinha visitar-nos todos os Verões, mais ou menos a meio de Agosto, e implicava uma interrupção de banhos por dois ou três dias. A minha mãe achava que estava frio demais para se andar na ribeira e eu obedecia, porque era suposto, por mais triste que ficasse. Naquele tempo a água da ribeira ainda nunca estava fria para mim e o reumático anunciado parecia-me coisa longínqua e com possibilidades de não se concretizar.

Há tempos fugiram-me da boca as mesmas palavras, "está a guieira na serra". E fugiu um sorriso logo a seguir, quando percebi. Os olhos dos meus filhos brilharam com a curiosidade da palavra estranha e apresentei-os à névoa, que pairava ao pé da nossa casa, linda porque era Inverno... cinquenta perguntas depois, daquelas a que não sei responder, concordámos que era o tempo ideal para as histórias de fadas e reis, na altura em que o mistério está no ar e os bons procuram salvar todos, mas ainda não encontraram o caminho. Na Roda Fundeira, escrevi muitas na minha cabeça, e até alguns romances, dependendo da idade... 

Por vezes, a guieira era seguida pelo orvalho, que me molhava os sapatos de lona e não me deixava dormir a sesta na manta de farrapos "porque esta humidade do chão faz mal aos ossos", dizia a minha avó. Tanto cuidado com eles e não me livrei das suas maleitas...

Era assim. Duma virada, perdia banhos e sonos. Daqueles embalados pelos ramos dos pinheiros e picados por uma ou outra caruma que a brisa nos aponta. Num ano descobri que o beiral da janela do meu quarto era largo o suficiente para me acolher a ler "Os Cinco" e até apreciei aquela mudança de ritmo. A Isabel Allende também o conheceu bem e as Brumas de Avalon têm outra magia com a guieira na serra. Para recolher palha centeia ninguém contava comigo e enquanto não se lembravam que já era tempo de plantar a couve troncha (trochuda, parecida com a portuguesa), estava tudo melhor. É que depois de abertas as hostilidades, não se parava mais nas sementeiras...

De vez em quando encontro-me velha. Porque gosto de ficar no parapeito da minha janela, ou no degrau cimeiro da casita, a olhar para a serra e a lembrar-me da aldeia quando era viva. O ar era diferente, o cheiro era mais... era mais. Corria uma brisa ao fim da tarde que acalmava o calor dos não-banhistas e iniciava os preparativos para o jantar. O Ti Serafim, o Ti Salvador e às vezes o meu tio Armando eram anunciados pelos chocalhos dos respectivos rebanhos. Há trinta anos atrás, iria correr para a estrada à procura da Violeta do Ti Serafim por entre o pó levantado. Ou iria correr da estrada, a fugir do Anacleto do Ti Salvador, sempre com ar de mau e ladrar de cão que se faz 10 vezes maior do que é. Uma ou duas horas depois, possivelmente quando já estivesse a jantar, veria passar o Morgado com o seu gado e um molho de mato que o vergava até aos pés. As galinhas cantavam no coro das Avé Marias para se recolherem. E despedia-me da Queta, também ela na janela que o meu avô tinha feito na porta do curral. Todos os dias era assim no Verão. Mesmo com a guieira na serra e o orvalho nos campos. E eu adorava. 

Um abraço.

PS - No seguimento de um comentário deixado no facebook por um amigo daquelas zonas, e porque tocou na dúvida que tive ao escrever este post,  resolvi acrescentar-lhe valor.

Quem lá cresceu, ou quem respirou realmente o nosso ar serrano, sabe bem que não dizemos "está a guieira na serra" mas sim "está águieira na serra!"... O ritmo das gentes, a cadência no falar, junta as palavras e atalha caminho por entre as regras do português para criar palavras locais que não vêm nos dicionários... fica o "acrescento" e o agradecimento ao José Baeta por ter ajudado a decidir-me a acrescentá-lo! Assim guardamos a versão ortograficamente correcta e a versão do falar da nossa terra...

sábado, 29 de junho de 2013

Uns óculos no Santo António.


Quando lá chegaram, o meu tio Carlos desapareceu por breves instantes. Voltou orgulhoso, ostentando uns óculos de sol. Onde é que encontraste isso, pá? perguntou-lhe o tio. Comprei-os! respondeu com os olhos a rir por detrás das lentes escuras. Foste rápido! concluiu o seu tio, divertido com o desembaraço já habitual do sobrinho.

Naquele ano, o meu avô António estava de visita e, ao que parece, fazia questão de marcar presença nas festas e romarias quando visitava a família. Por isso, naquele ano, a minha mãe foi ao Santo António. Com a mãe, irmãs e cunhado, com as Gémeas do Valdamego e ainda com a Gina do Balsalgueiro. E, claro, com o primo Carlos. Dos brasileiros, da Relva-da-Mó, para que não fiquem dúvidas.

Não importava que tivessem de começar a caminhada às 8h00 da manhã. Chegariam a tempo para a missa.  E o arraial era só depois do almoço: um galo morto na véspera e um tacho de arroz para acompanhar. Broa, claro, que se poupava o pão que se vendia por lá. E o garrafão, presença obrigatória em todas as fotografias da época, qualquer que fosse a família a recordar.

No grande pic-nic, não importava se o almoço era rico ou pobre: chegava um pedaço de carne cozida, um chouriço, um pouco de queijo ou  presunto e broa. O que realmente alimentava era o som da concertina e da flauta, do riso, o namorico entabulado entre duas modas, a amizade que se respirava no Santo António das Neves. Talvez nem se soubesse que os seus poços gelaram Lisboa durante séculos... gelada, agora, só a água da nascente que a todos servia nestas breves visitas.

... e o Tio Armando e a Tia Teresa... e esta faz-me lembrar alguém que eu conheço... quem é mãe? Quando penso no Santo António, lembro-me imediatamente da foto pequena, quadrada, de margem recortada, preto e branco, que é a minha ligação a este dia. É a Gina. E este, conheces? Semicerrei os olhos para ver melhor. É Ti Carlos. Mas porque é que ele tem óculos? A gargalhada franca da minha mãe fez-me antever a história que lá vinha. Com ele, só podia ser das boas...

Já lá fui, claro. Mas sem arraial. Até já vi o Santo António das Neves, aquele imenso campo verde, coberto de neve. Mas, para mim, aquela romaria terá sempre um sorriso de surpresa do meu avô, uma resposta pronta do meu tio Carlos e um par de óculos escuros.


Queria deixar qualquer coisa especial para a despedida do São Pedro e foi disto que me lembrei.
Um abraço 
(PS- Prometo juntar a dita foto)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Cascar batatas

A minha avó Emília cascava as batatas. Geralmente sentada num banco, ao lado esquerdo da porta da entrada da casa. Se fechar os olhos ainda agora a lá vejo, muito pacientemente, a retirar com a maior facilidade uma pele quase translúcida. Só quando comecei a ajudar nas culinárias lá de casa é que abarquei a arte envolvida neste aproveitamento da batata, com desperdício (quase, quase) zero. Não raro, na preparação do almoço com a ajuda das filhas, ouvia-a dizer "mas vocês cascam-nas tã rápido!" sobre a diferença entre as pilhas resultantes do trabalho respectivo. Parando o seu gesto preciso de poupança vivida, ficava num orgulho das suas meninas de quem frequentemente gabava os cozinhados, sem valorizar as gramas perdidas pela velocidade destas.
 
Eu fui aos treinos com ela. Do outro lado do balde das batatas já lavadas da terra branca ou negra, sentada num naqueles bancos de madeira de 20cm, óptimos para a lareira, tentei aprender a cascar batatas. Ofereci-lhes gargalhadas pela minha falta de jeito inicial, e percebi finalmente a lâmina arredondada pelos anos das facas da aldeia. Aprendi a arte de cascar batatas e foi com orgulho que exibi a primeira pele sem grama de batata aos olhos incrédulos da minha mãe, a quem o tempo exigia antes o desembaraço. Foi divertido, como em tudo nas crianças, até ao dia em que percebi que tinha passado a ser assumida como garantida a minha ajuda. Consegui, também com a arte das crianças, remeter a minha preciosa prestação apenas para a azáfama dos dias de festa. Nesses, também gostava de ajudar a espetar as cebolas e batatas pequenas nos arames em que assavam no forno, entre tabuleiros de lombo e a broa, os bolos de carne e cebola. E depois punha a mesa e desencantava bancos e cadeiras para receber a família que víamos duas vezes por ano, mas de que sentíamos verdadeira falta caso não estivesse. Foi raro.

A minha avó também passajava as calças do meu avô António. Com uma paciência infinda e pontos curtos e invisíveis aos olhos mais atentos, a minha avó fazia renascer as calças com que ele guardava o gado. Sem remendos, sem costuras, sem ar andrajoso. Ensinou-me que a má figura do marido também é vergonha da mulher, que não sabe cuidar dele. O "também", para mim, fazia toda a diferença. A minha avó orgulhava-se do seu homem, que a tratou por cachopa até ao dia em que deixou de a poder chamar para sempre, 57 anos depois da primeira vez.
 
Esta arte não aprendi. Requeria demasiada destreza no manuseio dos instrumentos cirúrgicos necessários a operação tão delicada e, honestamente, nunca me achei capaz. Mas aprendi que o hábito e a vontade fazem com que se volte a ver aos 80 anos como não se via aos 60, que os dedos retorcidos pelas artroses podem continuar ágeis se souberem que só eles farão o trabalho, que as costas arqueadas doem menos se se trabalhar por amor.

A minha avó nunca perdeu grande tempo com lições de economia e finanças, de bons modos ou educação comigo. Ainda hoje consigo ouvi-la contar algumas histórias que repetiu vezes sem conta à lareira e de que eu já conhecia pormenores que hoje seriam novos outra vez. E essas, porque estavam nos seus gestos diários, essas sim me mostraram como ela, sem saber ler ou escrever, era uma grande mulher. E hoje, de cada vez que descasco uma batata, lembro-me que faria melhor se a cascasse. E quando descubro que o consegui sem uma dedicação consciente a tal, sinto-me contente. Qualquer que seja... a batata!

Um abraço. 

quinta-feira, 7 de março de 2013

O exame da 3ª classe

A minha mãe fez o exame da terceira classe em Alvares.
 

Terá falado dos rios de Portugal e seus afluentes, da falange-falanginha-falangeta, ou dos caminhos de ferro de Angola e Moçambique, também ainda território nacional, que teve de decorar na eventualidade de um dia lá se deslocar. Os rapazes seus colegas ainda os veriam destruídos pela Guerra em que também foram envolvidos, mas para ela nunca passaram de nomes ocos de significado.
 
Aprendeu, na escola velha, na Roda Cimeira, ao pé da Venda, com colegas que chegavam a vir dos Amieiros e das Cabeçadas, pelas barrocas cheias de água ou neve ou gelo. Diz hoje que devem ser 2 horas de caminho, mas para pés com seis ou sete anos não levariam tanto tempo. Talvez a neve e a geada ajudassem na descida dos pés calejados, uma vez que não há relatos de grandes esfoladelas.
 
Na escola velha, ao pé da Venda, havia uma casa das batas. O que eu acho giro, porque não consigo imaginar a aldeia invadida por 80 batas, principalmente porque a imagem  mais jovem que tenho das pessoas é por volta dos seus 40 anos.... Mas a minha mãe diz que as batas se sentavam 3 a 3 por carteira, espalhados pela sala de acordo com alturas e, mais importante ainda, pela classe que frequentavam, e no fim do dia ficavam todas penduradas na sala das batas.
 
A professora da 1ª e 2ª classe foi a Zulmira do Nascimento Rodrigues, de São Tomé. Ao que parece, seria boa utilizadora da régua e da cana, trazida pelos próprios alunos do caminho para a escola sob sua encomenda. Penso que tenha sido a esta professoa que o meu tio Carlos, já farto das mãos quentes, tenha prendido a régua no seu vai-e-vem interminável e tenha resolvido testar as suas propriedades aerodinâmicas num voo, pela janela, até ao telhado do Ti Franklim. Um olhar final de estupefação trocado entre os dois terá posto um fim ao episódio, e ele foi-se sentar para ouvir o resto da lição. Alguém terá reposto a falta no dia seguinte, mas parece que a determinação daquele instante o manteve a salvo ppor algumas semanas.
 
A terceira classe terá estado a cargo da professora do Casal Novo, Maria Isabel das Neves. No dia do exame, professora e alunos deslocaram-se em excursão até à Vila. A pé, claro, pois não havia outro transporte conhecido. Ao fim da manhã, comeu-se o almoço orgulhoso, feito e levado pelas mães naquela ocasião solene. Naquele dia, os seus filhos e filhas tornavam-se homens e mulheres sabedores e conquistavam um diploma que atestava o seu bem mais precioso, o saber. Porque naquele tempo, saber era de facto valioso, porque de facto se aprendia e porque isso era algo almejado. Este tesouro poderia ser a diferença entre se manterem na vida difícil do campo ou tentarem a sua sorte na cidade.
 
Começaram-se namoricos na escola. Sem as modernices que os tempos de hoje permitem, mas com a pureza daquelas terras. A forma como ela se mexia dentro do avental de peitilho feito da mais recente chita da venda chamava a atenção dele, e ela espreitava pelo canto do olho como ele fazia as coisas dos rapazes. Os namoros começavam depois, muitos nos bailaricos, onde duas modas dançadas de seguida pelo mesmo par davam azo a libertar as más-línguas.
 
A minha mãe nunca sonhou que casaria com o meu pai. Partilharam a sala de aula quando ela fez a 1ª e a 2ª classe, esta última por duas vezes por escrever Heriques. A professora ainda tentou aquilo que seria hoje chamado de "prova de recuperação": chamou ao quadro a Odete do Fundo do Vale que incluíu o "n" em falta no seu nome nas duas vezes que exemplificou. Mas, incapaz de explicar à professora que não via o que a colega escrevia, a minha mãe manteve o erro nos dois ensaios a que teve direito naquela oportunidade final que a professora lhe deu. E tudo se resolveu com "por muito que goste de ti, Adelaide, não te posso passar para a 3ª classe sem saberes escrever o teu nome como deve de ser". Só no ano seguinte a minha mãe descobriu o que fazia mal.
 
Naquele tempo, um diploma era um diploma e era um acontecimento. Mesmo que se tivesse de suportar, em pleno Junho, um vestido de fioco (espécie de lã), de manga comprida, feito durante a noite anterior. Estavam todos entre iguais, com a mesma dor de barriga e a mesma esperança suada, não pelo andar a pé, pela roupa desajustada ou pelos sapatos inexistentes. Mas pelo caminho feito até ali de esforço de estudar sem condições mínimas para tal. Ou materiais. Ou apoios. Ou compreensão.
 
A minha mãe fez o exame da terceira classe nesta escola, em Alvares. Como todos naquele tempo. E foi aprovada!
 
Um abraço.
 
PS - Caro João Antão, se não quiser que use a sua foto, por favor avise-me que a retirarei de imediato. Mas foi esta foto e os comentários que surgiram à volta dela no facebook que me levaram a finalmente escrever estas histórias. E outras dos próximos post...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

O Pobre de Alveite

"Mas explica-me lá melhor isso do Pobre de Alveite", pedi eu, que não tinha apanhado parte da conversa. "O Pobre de Alveite... ora, o Pobre de Alveite era uma instituição!" concluiu a minha mãe. Com a naturalidade de quem conhece o assunto pela vida. Calei a gargalhada dentro de mim e mantive apenas o ar interessado: "então conta-me lá como funcionava essa instituição..."
 
O Pobre de Alveite era um homem. O seu nome não é lembrado, mas da figura ninguém se esquece. No almoço de família, recordou-se aquela personagem que passou pela Roda Fundeira anos a fio, sem pedir mais do que o que estavam dispostos a dar-lhe. Sem aviso de chegada, ou data de partida, três ou quatro vezes por ano, vinha com um sorriso e dormia onde lhe cediam um tecto.

Sabe-se pouco sobre ele. O que juntava, do que lhe davam, era para consumir ali, junto de quem o apoiava e "não para acumular em sacos como outros que por lá passavam" acrescentou a sogra. Às vezes, tinha para cozer duas chouriças, e dependia da cozinheira a sensatez de recusar a oferta tentadora de um extra para aquela refeição, zelando para que a dádiva fosse mesmo para ele.

Chegou a pernoitar no telheiro da Munha, no forno da ti Olinda da Venda, ou no Valedamego, na casa da Ti Lucinda. Parece que, nos últimos anos, escolhia mais este último porque dormir num quarto era melhor que em cima das capas do milho, ou no mato cortado para ser posto no curral. E ficava o tempo que queria, sem que o mandassem embora. E nem era esperado que fizesse algum trabalho em troca "porque era assim, porque ele não dava para trabalhar".

De onde vinha, se tinha família, se alguém o procurava ou esperava... não me souberam explicar. Não era importante, apenas as histórias que trazia ou que vivia e dava a viver. Sabia o nome de todos da aldeia e explicava bem a quem o queria ouvir o que cada um fazia por ele, ou por quem se cruzava no dia-a-dia. Sabia, e explicava sem pudor e sem pedido, a quem estava para o ouvir, sem censura ou sensatez. Apenas dizia o que havia para ser dito e pronto.

O Pobre de Alveite era, de facto, uma instituição. A aldeia conhecia-o. E a aldeia adoptou-o, ou não haveria o acolhimento fraterno em cada casa, a partilha do pouco que havia (ou não), a disponibilidade para que dormisse sob as mesmas telhas. Da caleira, claro. E ele ficava. E parecia sentir-se bem. Até um dia acordar e seguir viagem para a próxima aldeia que o acolhia. Ao que parece, todos ali à volta conheciam o Pobre de Alveite. E todos, juntos, eram o seu suporte social, num tempo em que não havia Banco Alimentar, IPSS ou subsídios que lhe pudessem valer. A terra, a minha terra (e as restantes à volta), assumiam o cuidado do Pobre de Alveite como se ele fosse seu e devesse ser cuidado na medida das capacidades que tinha, sem medos de castigos supremos ou anseios de recompensas divinas por este acto. E é este cuidar dos nossos que me parece tão natural nas terras, que me orgulha tanto, que é tão imperfeito e tão imprescindível, tão natural e tão em falta hoje. O cuidar porque era isso que se devia fazer. Porque era o Pobre de Alveite e ele era assim.

Um abraço.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Petiscos da minha terra

Há dias fiquei cheia de inveja de alguém que publicou no facebook "acabei de fazer broa, agora estou a comer broa quente com manteiga, alguem é servido????". Grrrrrrrrrr!

Pois que franzi os olhos à Natália Domingos (a autora da gracinha) enquanto sentia aquele cheiro meio adocicado e seco... e vi, naquele momento, a manteiga a derreter-se com o calor da broa cortada a murro à boca do forno, aquele ficar translúcida e escorregar no miolo amarelado... huuuuummmmm!, que me soube tão bem!

Os petiscos da minha terra... de cada vez que lá vou, tenho como certo que vai haver petisco. Onde, quando, com quem... isso são questões a resolver na altura. O porquê está sempre respondido: porque nos apetece, porque faz parte de ir à Roda Fundeira fazer um petisco com quem lá está e passar umas horas a partilhar risos e lembranças, sonhos ou planos e até lágrimas, dependendo para onde estão os humores virados. Mas uma coisa é certa: broa, queijinho, um chouricito ou farinheira, nos dias mais afortunados, um bolo de carne ou cebola (o meu favorito!), uma boa pinga ou aguinha da fonte... isso é que não pode faltar!

Dizem que os portugueses fazem a sua vida à volta da mesa... para mim é impossível dissociar as minhas lembranças da Roda Fundeira desta vida à volta da mesa e mesmo à volta do forno. Desde as refeições preparadas na fogueira, na panela de ferro ou nas de alumínio penduradas na trempe, do fumeiro, dos tabuleiros no forno ou das batatas e cebolar assadas no arame, das couves aferventadas com broa por baixo, da sopa de feijão... só nunca me convenci com a cabidela ou o sangue do porco ou mesmo o arroz de fissura. Que me desculpem os apreciadores, mas vejamos as coisas assim: mais fica para vocês!!! :-)

Não vivo na Roda Fundeira, mas tenho pedaços dela na minha vida diária. Tento replicar petiscos, mas resultam muito melhor lá. E às vezes também consigo fazer inveja aos meus amigos lisboetas quando lhes descrevo este ambiente e os sabores da broa acabada de fazer, molhada no azeite com alho do bacalhau no forno a lenha...Sim, Natália, eu também gosto de lhes fazer inveja, confesso! e de lhes ver no rosto aquele ar de "também quero"...


No outro dia, no entanto, foi a minha colega Cristina que me levou até à aldeia por momentos. Sendo da Portela da Cerdeira, a avó Fernanda (dela) também conhece a receita dos "farta rapazes", uns bolos simples de ovos, farinha, açucar e gordura, que nos deliciam à dejua ou à merenda. Pelo menos era o que fazia com os "bolinhos da ti Prazeres", maneira como conheço os ditos. O meu avô António levava sempre dois ou três, embrulhados no lenço engomado, dentro do bolso da samarra quando ia guardar o seu rebanho de cabras e ovelhas. E eram tão bons!!!! E ainda são, quando os faço por terras mais a sul, mas lá... lá têm outro gosto.

Um abraço.
(esta foto foi roubada, como podem ver pela fonte, porque vergonhosamente não tenho uma minha!!! Tenho de fazer uma fornada e tratar disso...)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Envelhecimento activo e a Emília da Munha

Discute-se o envelhecimento activo e a necessidade de o promover. Há dias, ouvi alguém conhecedor, altamente condecorado, afirmar que devemos ensinar aos nossos filhos que têm uma dívida para com os cidadãos maiores, para que nunca se esqueçam de que lhes devem carinho e atenção porque estes já trabalharam muito por eles e para que eles tivessem (individual e socialmente) o que têm hoje. E isto ficou a moer-me o juízo. 

Começando pelo mais fácil... maiores?!?!?! "Maiores" poderá fazer sentido em Espanha, dada a sua tradição oral. Para nós, parece-me apenas estranho. Talvez seja eu a estar envelhecida e não conseguir ver mais além. Mas continuo a achar que tudo se resolvia facilmente se em vez de mudarmos a palavra, mudássemos antes a carga emotiva que lhe é associada. 

Porque é que "ser idoso" é assim tão mau? ou ser "sénior" (já de si uma "modernice")? Qualquer criança/jovem/adulto/idoso que não compreenda o privilégio que é atingir uma idade avançada irá continuar a colocar a carga perjorativa no "maior"... ou em qualquer outro termo para falar de pessoas com idade acima de 65 anos...

Passava as férias escolares com os meus avós, assim que os meus pais podiam também viajar. Quando penso em "avós" (e não necessariamente nos meus) penso em pessoas envelhecidas, com rugas e cheiros próprios (seus e das roupas), com dores e sorrisos e piadas que só eles entendem, e com conhecimento, da vida comum, da história, ou até do mais académico. Mas o mais importante é o que sinto, e isso sim muda tudo. Porque quando penso em "avós" sinto o carinho que tive deles e que foi cultivado pelos meus pais no resto do ano em que não nos víamos, porque fazíamos coisas importantes (e pequenas!) como telefonar ao avô semanalmente (pelo menos, porque a vida está(va) cara), enviar um postal de Natal aos avós, falar deles e das suas histórias (presentes e passadas) nos tempos partilhados pela família (refeições, passeios, festa e convívios...). Sempre com carinho, mesmo quando se falava dos defeitos. 

As emoções que associamos às palavras, são o que as torna boas ou más, para nós e para quem as ouve. E é com elas que demonstramos o respeito que temos ou não pelos outros... ou não seria possível, com as palavras mais correctas, dizer as maiores barbaridades possíveis a alguém.

Recuso-me a ensinar dívidas aos meus filhos. Acredito em ensinar respeito, afectos, reciprocidade, a cultivar a sensibilidade e a atenção para o que os nossos actos e palavras possam ter sobre os outros. Desde o berço que ouvem falar dos avós que nunca conheceram e da bisavó que ainda está viva, com visitas, e histórias e factos e fotos e desenhos, que ainda lhes conseguimos passar de tantos que eu própria já perdi. E talvez por isso, eles adorem os avós e não tenham medo de perguntar se podem fazer uma festinha à bisa, mesmo quando ela já teve dias em que foi mais bonita e comunicativa. E os avós, fazem parte deles enquanto pessoas. E sabem que existem mais avós no mundo para além dos deles.

Em vez de ensinar dívidas... que tal ensinarmos antes a cultivar afectos e respeito? Até porque estes se aplicam a idosos e a menos idosos também... a nós. Parece-me mais justo. Para nós, para as crianças, para os idosos e para a sociedade. Parece-me mais generoso também, darmos-lhes uma carga positiva - reconhecimento - em vez de dívidas. 
E sim, bem sei que nem todos os idosos são como eu descrevi. Eu também pretendo ser um pouco diferente. Mas sou toldada pela imagem que guardo dos meus avós... como esta, da Emília da Munha, de quem adorava as mãos, retorcida pelo gelo das águas e pela agrura do trabalho do campo. Quando me lembro das suas mãos, sinto uma onda de carinho a envolver-me. E não é por me lembrar do colo ou dos brinquedos que me deram, mas sim pelo carinho que sentia por ela... e dela. Sim, porque ela também me ensinou a respeitá-la e a gostar dela.

No Natal, fazem-me falta os meus avós. E a minha terra.

Até breve.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Ele vem aí!!!

Estas não foram tiradas agora... foi talvez há um ano, já não me lembro bem.

 
Mas é nevoeiro, o que vemos na serra. Daquele que parece algodão, que quase conseguimos agarrar. E vem, devagar, como alguém que segue o seu caminho, sem se importar com quem se cruza.
 
Nestes dias, na Roda Fundeira, o nariz fica gelado durante a noite, porque é a única coisa que fica destapada. De manhã, já com o galo cansado de cantar, ainda se houve o gelo a estalar na erva. As cabras sacodem as patas quando vão ao pastoreio.
 
Lembro-me de tudo isto e de adorar ir para a terra do meu avô (que na realidade até veio da Roda Cimeira...), mesmo sendo difícil brincar por estar tanto frio. Lembro-me de ficar à lareira na azáfama de se preparar o almoço e de ter o rosto vermelho de tão quente e as costas geladas do vento frio da rua que entrava pela meia-porta da cozinha. Lembro-me dos raspanetes ouvidos por queimar gravetos de pinheiro e fazer com eles mil desenhos no ar com a sua ponta incandescente.

 
Tenho saudades da Roda Fundeira. Tenho saudades de estar na escola e contar os dias para começar as férias de Natal, sempre garantia de visitar os meus avós. E tinha de estar frio, ou não parecia Natal. E lembro-me, avózinha, lembro-me tão bem do cheiro bom das fatias paridas deliciosas que fazias e que muitas vezes me recebia quando corria para a cozinha à tua procura, chegada desta terra que nunca vi muito como "a minha terra".
 
Já chegou o frio de Dezembro e é quase Natal. Só não tenho outra vez 8 anos...
 
Até breve.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Três gatos não pingados (ou quatro)


Na minha aldeia todos tinham gatos. Sempre. Todas as casas tinham um gato. Ou dois... a sua função era caçarem ratos e osgas, largatixas e outros bicharocos afins que não interessavam a ninguém.
Não me lembro, de entre as muitas que ouvi ao calor da fogueira, de histórias de pessoas a subirem para cadeiras ou mesas com pânico de ratos. Assim como nos filmes, quando se arrancam umas gargalhadas à plateia. Na verdade, era assim desde sempre: todas as casas tinham ratos. E, por isso, todas tinham também gatos para os caçar. 

Para além da caça, os gatos sentavam-se ao colo das velhas. Perdão, das cidadãs mais idosas. Das maiores, como agora se diz. (Sobre isso, falarei, mas não agora). Elas sentavam-se à fogueira (lareiras são modernices), quando tentavam aquecer os pés gelados duma vida a regar os campos. Nos banquinhos pequenos que hoje se vendem nas feiras "para enfeitar", como recordação do antigamente. Ou então, em tempos mais idos que já não conheci, no chão feito degrau, que todas as cozinhas tinham e que deixava a lareira num plano mais baixo da restante cozinha - o bordo da lareira. Diz-me a minha mãe que também lá se dormia, de vez em quando, os mais novos ou os mais antigos da casa, se o bordo era largo e o conforto da fogueira ganhava à vontade de um colchão de palha. 

Malhado. Pretito. Branquinho. Farrusco. Pintado. E até Tareco. Várias gerações de pedigree selvagem e batismo duvidoso passaram pela terra nas minhas férias. E, claro, Bicho, o nome mais habitual. 

Ultimamente, o Ti Salvador abrigava a Bicha Côca que namorou com o meu Chico, gato preto, lisboeta. Coisa fina!!! "Já sabia que tinham chegado, o teu Chico já lá foi à procura da minha bicha Côca! Cabrão do bicho, alembra-se bem quéla lá está!" E o meu Chico - Chico Moisés, como o meu pai gostava de lhe chamar - deixou por lá a sua semente, que ainda este ano me cruzei com um tetraneto seu, focinho e rabo igual ao do antepassado. Só menos marcado das lutas entre bichanos, disputando comer e gatas, por cima dos telhados, com unhadas fundas e uma cantoria inesquecível, própria do ataque. A concorrência será menor agora, com as casas vazias, também de ratos, pelo que as lutas também serão menos frequentes. Mas aquele olhar, aquele olhar era do Chico, do meu Chico.

Ainda me lembro do orgulho que senti quando consegui chamar os gatos lá de casa daquela maneira inconfundível: "Biiiiiiiiiicho, bsbsbsbsbssbsbsbssbsb...". Devia ter dois ou três anos. Cresci nesse dia. E quando passava por um muro destes, passei a tentar convencê-los a aproximarem-se. Que vitória!
Noutros tempos, o Bicho passava os dias enrolado no canto da cozinha, aquele que ele escolhera para seu. E aguardava pacientemente pelo mimo do colo cansado que o acolhia contente, e pela mão retorcida do frio que lhe acariciava o pelo quente do lume. E assim se passavam serões, com conversa ou sem ela, mas acompanhados nos estalidos do lume que quebrava os invernos rigorosos da aldeia.

domingo, 29 de julho de 2012

Foz Palheiros, anos 80/90

Estamos a construir o Complexo de Lazer da Foz Palheiros. É um sonho antigo, parece que é desta que vai. 

A Foz Palheiros merece-nos um carinho especial. Lembro-me de lá passar tardes inteiras com a minha tia Prazeres que lavava a roupa enquanto eu aproveitava para apanhar peixes e fingir que nadava. Os peixes invariavelmente acabavam mortos numa bacia verde no terraço da casa do meu avô - só anos mais tarde percebi a necessidade das algas para a produção de oxigénio dentro de água e sempre achei que o que eles tinham era fome.Assim como assim, ia-lhes deitando pão (miolo que a côdea era muito dura para eles, coitadinhos!) e ficava contente ao vê-los comer. Sim, também demorei uns anos a descobrir que os peixes em ambiente artificial (não posso propriamente chamar aquário ao alguidar dos meus avós) estão sempre a comer, se preciso for, até rebentar.

Fui, portanto, uma serial killer de peixinhos durante a minha infância. Já com as eirós (ou calhandras, nunca percebi muito bem) não me metia, e valeram-se uns valentes sustos de cada vez que nos cruzávamos. Com os respectivos gritos, saltos e fugas apressadas. Mais tarde aprendi que elas têm mais medo de mim que eu delas (vantagens da selecção natural) e que desde que não se levantem pedras (das grandes, já a dar para o "rocha") ou se evite meter as mãos dentro dos buracos, estamos mais ou menos a salvo destes encontros imediatos. Passo o ensinamento aos mais incrédulos desde então e ostento orgulhosamente aquele sorriso de "eu também já fui assim" de cada vez que vejo uma cena dessas...

Foi na Foz Palheiros que aperfeiçoei o meu estilo preferido de miúda: o "à sapo". Bruços só anos mais tarde, depois de andar na natação. Ainda me rio quando penso nas figuras... mas muitos mergulhos dei debaixo da ponte pequena, sítio fundo o suficiente para ensaiar umas braçadas, rampa de lançamento para voos mais altos no Poço Lavadouro. Mas isso fica para outro post...aqui, fica a última foto que tirei à Foz Palheiros antes de ser construída a primeira represa, em 1990. Era assim, já custa lembrar.

Anos mais tarde, conheci a Foz Palheiros à noite. Dito assim, soa com estilo. Mas era verdade que tinha outro encanto, até porque era o sítio onde se conseguia estar mais perto da água e onde a lua iluminava mais. No início de Agosto, claro. E onde algumas vezes parámos para ouvir música e deitar conversa fora sobre temas importantíssimos de que nunca mais nos lembrávamos. Estávamos juntos e isso era a verdade.

Agora vou levar os meus filhos ao banho à Foz Palheiros. Só há dias percebi como soa estranho "levar ao banho" para quem não seja das nossas aldeias, mas nem quero saber, faz parte da cultura rodafundeirense, relvadamodense e afins. Faz parte de nós irmos ao banho às quatro da tarde, ficarmos chateados se o tempo não está bom para o banho, interrompermos torneios por causa da hora do banho e até ir ao banho com a chuva de trovoada que nos visita sempre mais para o meio/fim de Agosto. E para quem não cresceu na minha terra, isto parece muito estranho. Para nós é apenas bom...

Ouvi dizer que havia quem fosse ao banho num estilo mais natural ou até mesmo de madrugada... mas parece que são só as más línguas a falar. Seria preciso gostar mesmo muito da nossa ribeira de água fresca para mergulhar de noite. Gostar mesmo muito de ir ao banho...

A nossa terra tem um bem espectacular - a ribeira que a acompanha e à nossa vida. Este ano vamos inaugurar o Complexo de Lazer da Foz Palheiros e esperamos poder partilhar este gosto pelo banho com os nossos amigos. Vozes disseram que íamos estragar a Ribeira, mas contamos que gostem tanto do nosso cantinho como nós e que o estimem de igual.

É já a 12 de Agosto. De 2012. É para dar sorte ao CLFP.

Venham tomar banho connosco!
Um abraço.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Foz Palheiros, 1967

Em 1967, era assim a Foz Palheiros, vista do lado da Tapada do Pizão. É a minha mãe na foto, a Adelaide da Munha, nome com que me habituei a apresentar-me: "sou filha da Adelaide da Munha" garantia-me a identificação instantânea de quem se intrigava comigo. 

Ela passava para o Vale das Colmeias, fazenda que tratava, enquanto outras lavavam na ribeira. Os miúdos passeavam entre brincadeiras e tarefas hoje consideradas demasiado para crianças, mas que eram feitas com orgulho de quem conta para a família.

"Encosta-te aí para te tirar uma fotografia" disseram as primas, sobrinhas do Ti Manel Zé (parece que filhas do António). Moravam em Lisboa (em Castelo Picão?) e a minha mãe conheceu-as nesse dia. Ou pelo menos é assim que eu me lembro da história. E ela lá se encostou à ponte, sem jeito, a pensar em como o seu avental de peitilho iria ficar mal na fotografia pelo trabalho que já carregava. E nem sorriu, com a vergonha natural de quem é humilde e pensa no trabalho que a chama, mas tem de dar atenção às primas de Lisboa. Era assim, com 22 anos. Pouco depois também estaria em Lisboa.


A Ribeira do Sinhel acompanha as aldeias que descem a serra quando saímos da Nacional 2 na Portela do Casal Novo. Acompanhava a vida das terras, abastecendo cântaros para refrescar corpo e alma cansados do duro trabalho do campo. Servindo para lavar roupa e trocar desencantos maduros ou sonhos de meninas, lavados com sabão azul e branco, batidos na pedra lavadoira e deixados a corar em cima das moiteiras para o alvor da lixívia que não existia. Mergulhada em Abril pelos que queriam saber nadar, ou no pico do Verão por uma moça mais atrevida desejando não ser apanhada.

A Ribeira do Sinhel também acompanhou a morte da população das aldeias, que o minério não poupou peixes e homens, gerando terras de luto, cobertas do negro dos lenços e roupas que trabalhavam os campos com os filhos nas cestas, sozinhas de companheiros para um futuro que tinham sonhado a dois.

A Ribeira do Sinhel escavou rochas, construiu Poços, moldou beleza por onde correu e corre, apressada e cheia de Inverno, tímida e fresca de Verão.Viu namoros e zangas, perigos e alegrias, ouviu queixas e choros, pensou vidas e mortes e vidas depois das partidas. A Ribeira do Sinhel, a nossa ribeira, criou as pessoas e ensinou-as, ajudou-as também a serem o que são hoje. Faz parte da terra, da nossa terra, de nós, mesmo dos que já nascemos fora de lá.

Na Roda Fundeira, à entrada da aldeia, a Ribeira do Sinhel chama-se Foz Palheiros. Ninguém sabe muito bem porquê, mas é assim à beira da Tapada do Pizão. Noutros lugares, outros nomes, o mesmo encanto e o mesmo sabor nas recordações. Era assim em 1967, tal como a minha mãe. Já foi de muitas maneiras desde então, mas continua igual na água: límpida, fria, acolhedora, pura. Continua nossa. E será sempre assim, enquanto quisermos e continuarmos a dar-lhe a nossa história e a levarmos lá os que nos são especiais. Como ela.

Um abraço.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O silêncio ainda se ouve e o céu ainda tem estrelas...

Há dias dei por mim a escrever no facebook: "É que o silêncio, nas nossas terras, ainda se ouve e o céu ainda tem estrelas de noite.... e é liiiiiiiiiiindo!!!". E é mesmo verdade!!!

Todos gostamos de olhar para o céu, de vez em quando. Ver as nuvens que passam, ou as estrelas que o enfeitam, o pôr ou o nascer do sol... nem que seja apenas nas alturas em que estamos mais românticos, mas todos parámos a olhar para esta redoma imensa que nos protege e que tem o seu lado místico que atrai. 

Lembro-me que há uns (bons) anos atrás não era tão comum ouvir-se falar de "chuva de estrelas" como um acontecimento noticiável no jornal da noite. Lembro-me também do entusiasmo que sentimos ao planear ir ver a chuva de estrelas, o que era um motivo perfeitamente válido para fazer uma excursão nocturna até à Portela do Casal Novo e "abancar" lá em cima, com um frio dos diabos, e os pinheiros aos nossos pés - ainda não havia assim tantos eucaliptos...

Lembro-me de ter sido um frenesim, de abalarmos da aldeia em fila, contentes porque alguns já tinham carro e assim podíamos saborear a ocasião ao som da nossa música e das nossas parvoíces, juntos como é bom quando se tem vinte anos (ou menos...). E lá ficámos a olhar o céu, a gritar "já vi uma" quando uma estrela cadente solitária atravessava o céu para nos enganar. 

A meio da madrugada resolvemos voltar, defraudados com a chuva de estrelas que afinal não veio, intrigados com o relevo dado pela comunicação social a meia dúzia de estrelas cadentes que estamos habituados a ver no "nosso" céu em Agosto, contentes com o pretexto para a saída e o tema para a conversa de café e banho do dia seguinte... e com a partilha de mais uns bons momentos em saímos todos juntos com um qualquer objectivo de peso.

Quando somos adolescentes, vivemos num minuto o que se vive em horas quando se é adulto. Aquela noite durou semanas (tal como tantas outras noites de Agosto) e lembro-me de chegar a casa e me sentar no parapeito da minha janela a olhar para o céu mais uma vez e a pensar em tudo o tínhamos rido e dançado, dito e sentido naquela noite. Muitas vezes, antes e depois, pensei com o silêncio do céu negro, que é mesmo negro na minha terra, que envolve e aconchega ou assusta consoante o que trazemos por dentro...

 
Pouco passava das 04h00 quando me preparava para dormir, quando, uma após outra, as estrelas choveram do céu. E no silêncio da noite, que na minha terra às vezes tem grilos, eu consegui ouvir aquela chuva no mato seco, enchi a alma com a beleza do céu iluminado e deitei-me mais feliz, guardando o trunfo para jogar no dia seguinte na conversa da ribeira...



Gosto disto. Gosto que, na minha terra, o silêncio ainda se oiça e o céu tenha estrelas de noite. 

Um abraço!