segunda-feira, 5 de agosto de 2013

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Lá se foi o Santiago...


Lá se foi o Santiago... E a voz dele assumiu, com simplicidade, a tristeza que o rosto dela tentava disfarçar.

Sentavam-se naquela rocha como em muitos dias antes e alguns depois daquele. Partilhavam a arte de pastor há muitos anos dos poucos das suas vidas. Não podiam chamar-se amigos, porque os tempos não o permitiam, mas cresceram a brincar juntos. E por isso ele sabia que o Santiago lhe fugia todos os anos.

Em Julho, o verde daquela calçada do Vale das Colmeias trazia a boa-nova da arca cheia, da broa garantida. Mas, a 24, trazia também à minha mãe a desilusão de trocar novamente a romaria pelo trabalho do campo. Aquela era a data em que, saído de nenhures, um vento vespertino visitava a dita calçada para festejar o vigor do verde milho... e derrubá-lo todo à sua passagem.

As pequenas maçãs amarelas, as maçãs do Santiago, ficariam por provar, novamente. As razões entre Amieiros e Mestras seriam tiradas sem que as pudesse avaliar, se naquele ano lhe aprouvesse. O bailarico seguiria, imperturbável pela sua ausência anual, costume mantido pela visita pontual do vento, sempre na véspera do dia da Festa do Santiago.

Ó minha mãe, ela diria ao chegar a casa, o milho da calçada ficou todo no chão. E, no lusco-fusco da hora tardia, ouviria a resposta já antecipada dos anos anteriores, ora... então amanhã temos de lá ir levantar o milho. Com os anos, foi-se resignado ao cereal derrubado e conformando com as alegrias contadas por quem ia.

Mas desta vez não iria haver desculpa. Engoliu o nó da garganta e decidiu-se a derramar pinheiros para especar o milho. Ó minha mãe, ela diria ao chegar a casa, o milho da calçada ficou todo no chão. E, no lusco-fusco da hora tardia, ela iria ainda acrescentar mas já o espequei! E talvez depois até fosse capaz de dizer e amanhã,vamos a que horas? 

Naquele ano, ela conseguiu ir ao Santiago... e foi já lá, na roda do fado, ao som da concertina que alguém levou, que foi capaz de se rir com o destino do milho, ditado anualmente pelo vento agendado para aquele dia.


Um Abraço.
PS - a minha mãe foi ao Santiago mais vezes. Mas algumas vezes a minha avó Emília escolhia colocar os carvalheiros no milho em vez de ir à festa... e isso ficou-lhe.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

A minha tia Prazeres

Este ano os mordomos são da Munha. Brinquei com pais e tios: "fazem bem assumir esses afazeres, que me deixam a mim livre por mais uns anos". Quando se completar a volta à aldeia, já teremos uma idade mais aceitável para assumir estes cargos importantes. E embora afirmasse o meu tio que já estava na nossa hora, resguardámo-nos neste belo argumento da antiguidade no posto... e resultou!

Ser mordomo é um trabalho e uma honra. Cresci habituada a perguntar quem é o mordomo este ano?, mesmo sem entender muito bem o significado de ser mordomo. Quando finalmente procurei (outra vez o dicionário) descobri que significa literalmente "administrador da casa, do estabelecimento de outro, dos bens da confraria ou irmandade; o que prepara e dirige a festa de uma igreja". Da festa já eu sabia, porque nos anos em que os meus avós da Munha eram mordomos, o Padre chegou a almoçar lá em casa. E, embora noutros anos também o tivesse feito, aqueles eram diferentes. Havia um reboliço maior a que me tentava escapar, quando o mordomo era o meu avô. E era sempre o meu avô, nunca a minha avó. 

De miúda lembro-me também que ser mordomo, em alguns casos, era telefonar de Lisboa à minha tia Prazeres a perguntar se estava tudo pronto na Capela e "vá, então arranja lá tudo, que nós depois estamos aí no dia da festa para o que for preciso". Enquanto esteve solteira, foi ela quem cuidou da Capela ao longo dos anos, uma espécie de "mordoma permanente", em quem se confiava e que assegurava com agrado as tarefas necessárias. Claro que havia uma Comissão de Capela, constituída sempre por três homens, que garantiam que tudo iria ser bem feito. A minha tia ia-lhes explicando o necessário.

Passava as férias na Roda Fundeira. A curiosidade levou-me a acompanhar a minha tia naquele tempo que só muitos anos mais tarde percebi que era o seu tempo, o único que tinha para se voltar para si, para os seus pensamentos. Subíamos os degraus, abríamos a porta principal, ajoelhávamos e benziamo-nos, abríamos a porta da sacristia para circular o ar. Eram verificadas jarras e substituídas flores, confirmada a toalha e os paramentos para a Missa caso fosse de véspera, posicionadas galhetas, cálice e patena sobre uma pequena toalha branca (corporal), para mim, mais um rectângulo de pano, claramente desnecessário. Por último, acendia-se a lamparina, uma taça com azeite e um pavio grosso que parecia não se queimar de um dia para o outro, o que lhe conferia o misticismo necessário para prender a minha atenção. Aos poucos fui conquistando privilégios: abrir a porta, encher jarras, e até acender a lamparina. Algures fiz com a minha tia o pacto de me deixar viver a religião à minha maneira. Assim do mesmo modo que os outros são teimosos, mas nós somos apenas persistentes. As questões mantêm-se, mas já olho para este tempo com outros olhos.

Tocávamos as Trindades e voltávamos, com a sensação do dever cumprido. Depois a minha tia casou-se e renunciou ao cargo, devolvendo a responsabilidade à aldeia. Lembro-me que a Ti Maria das Almas cumpriu o ritual muito tempo, perdoem-me aqueles de quem me esqueço. Ultimamente penso imediatamente no Lomba quando penso na Capela. E na Dona Almerinda, para os cânticos. E na Esmeralda, também. Os restantes diluem-se mais entre todos.

Este ano, a minha tia Prazeres não irá à Roda Fundeira. Talvez seja o primeiro ano em que não passa lá a festa. Despedi-me dela hoje e falámos sobre isto. "És mordoma para o ano que vem", dizia-lhe, tentando tirar-lhe a tristeza dos olhos claros. No seu sorriso, no trejeito de boca que lhe é característico, respondeu-me "pois, já vês filha? Logo este ano... ainda quase lá num fui"... e eu, num impulso "vá, deixa, para o ano também somos todos!", respondi-lhe, invertendo papéis. E depois informei-a que lhe tinha roubado umas fotos antigas e queria usá-las, só não lhe disse para quê. 

Para o ano serão mordomos certamente.

Um abraço.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Está a guieira na serra

Geralmente era ao jantar. Entre uma garfada e outra, alguém anunciava "hum! Está a guieira na serra..." E eu descolava os olhos da televisão para constatar com tristeza aquilo que costumava significar fim dos banhos. 

A guieira é um vento brando e frio (dicionário Priberam da língua portuguesa, versão on-line para não dar muito trabalho a ir à prateleira). Estava na serra porque a acompanhava uma névoa esbranquiçada que se aconchegava no seu topo e que eu podia observar do meu lugar à mesa. Vinha visitar-nos todos os Verões, mais ou menos a meio de Agosto, e implicava uma interrupção de banhos por dois ou três dias. A minha mãe achava que estava frio demais para se andar na ribeira e eu obedecia, porque era suposto, por mais triste que ficasse. Naquele tempo a água da ribeira ainda nunca estava fria para mim e o reumático anunciado parecia-me coisa longínqua e com possibilidades de não se concretizar.

Há tempos fugiram-me da boca as mesmas palavras, "está a guieira na serra". E fugiu um sorriso logo a seguir, quando percebi. Os olhos dos meus filhos brilharam com a curiosidade da palavra estranha e apresentei-os à névoa, que pairava ao pé da nossa casa, linda porque era Inverno... cinquenta perguntas depois, daquelas a que não sei responder, concordámos que era o tempo ideal para as histórias de fadas e reis, na altura em que o mistério está no ar e os bons procuram salvar todos, mas ainda não encontraram o caminho. Na Roda Fundeira, escrevi muitas na minha cabeça, e até alguns romances, dependendo da idade... 

Por vezes, a guieira era seguida pelo orvalho, que me molhava os sapatos de lona e não me deixava dormir a sesta na manta de farrapos "porque esta humidade do chão faz mal aos ossos", dizia a minha avó. Tanto cuidado com eles e não me livrei das suas maleitas...

Era assim. Duma virada, perdia banhos e sonos. Daqueles embalados pelos ramos dos pinheiros e picados por uma ou outra caruma que a brisa nos aponta. Num ano descobri que o beiral da janela do meu quarto era largo o suficiente para me acolher a ler "Os Cinco" e até apreciei aquela mudança de ritmo. A Isabel Allende também o conheceu bem e as Brumas de Avalon têm outra magia com a guieira na serra. Para recolher palha centeia ninguém contava comigo e enquanto não se lembravam que já era tempo de plantar a couve troncha (trochuda, parecida com a portuguesa), estava tudo melhor. É que depois de abertas as hostilidades, não se parava mais nas sementeiras...

De vez em quando encontro-me velha. Porque gosto de ficar no parapeito da minha janela, ou no degrau cimeiro da casita, a olhar para a serra e a lembrar-me da aldeia quando era viva. O ar era diferente, o cheiro era mais... era mais. Corria uma brisa ao fim da tarde que acalmava o calor dos não-banhistas e iniciava os preparativos para o jantar. O Ti Serafim, o Ti Salvador e às vezes o meu tio Armando eram anunciados pelos chocalhos dos respectivos rebanhos. Há trinta anos atrás, iria correr para a estrada à procura da Violeta do Ti Serafim por entre o pó levantado. Ou iria correr da estrada, a fugir do Anacleto do Ti Salvador, sempre com ar de mau e ladrar de cão que se faz 10 vezes maior do que é. Uma ou duas horas depois, possivelmente quando já estivesse a jantar, veria passar o Morgado com o seu gado e um molho de mato que o vergava até aos pés. As galinhas cantavam no coro das Avé Marias para se recolherem. E despedia-me da Queta, também ela na janela que o meu avô tinha feito na porta do curral. Todos os dias era assim no Verão. Mesmo com a guieira na serra e o orvalho nos campos. E eu adorava. 

Um abraço.

PS - No seguimento de um comentário deixado no facebook por um amigo daquelas zonas, e porque tocou na dúvida que tive ao escrever este post,  resolvi acrescentar-lhe valor.

Quem lá cresceu, ou quem respirou realmente o nosso ar serrano, sabe bem que não dizemos "está a guieira na serra" mas sim "está águieira na serra!"... O ritmo das gentes, a cadência no falar, junta as palavras e atalha caminho por entre as regras do português para criar palavras locais que não vêm nos dicionários... fica o "acrescento" e o agradecimento ao José Baeta por ter ajudado a decidir-me a acrescentá-lo! Assim guardamos a versão ortograficamente correcta e a versão do falar da nossa terra...

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Um risquinho de lua

O risquinho de lua que sobrava lá no alto despediu as estrelas e acolheu o sol.

É fácil esquecer-me como é bonito o nascer do sol, quando todos falam do seu contrário. As cores nascem no céu como se alguém as convidasse e chegassem tímidas a um local que desconhecem, mas com a confiança de quem sabe ocupar o seu lugar.

Os cheiros são diferentes pela manhã - o cheiro das flores, da relva, da água, das aves, dos peixes na ribeira.  São claros como as cores que nascem devagarinho. Como se guardassem todo o cheiro que deviam cheirar durante a noite, para ser libertado com a primeira luz. Depois, durante o dia, vão sendo perdidos, como os ramos de flores em que se enterra o nariz: são muito cheirados e quase desaparecem.

O galo comparece sempre à cerimónia de abertura de um novo dia. Canta afinado, como se fosse o dia mais importante da sua vida, mesmo que seja o seu último. E até a ribeira corre mais alegre entre as pedras quando consegue ver o brilho do seu toque nas rochas. 

O risquinho de lua vai desaparecendo, sumido na luz envolvente da manhã, apagado pelo sol redondo e cheio. E sorri, enquanto se anima, enquanto choros e os risos se repensam ao despertar, e a vida repõe o seu movimento. 

E voltará, quando as cores quiserem ir descansar, para que fique uma luz no céu guardando o nosso sono.

Bom dia!