quarta-feira, 1 de julho de 2015

Respirar...

Respirar. 

De vez em quando é preciso parar para respirar. Puxar o ar para dentro, devagarinho, enquanto se inclina a cabeça para trás e se fecham os olhos. Devagarinho para o sentir a entrar, a percorrer-nos e chegar ao peito forçadamente. E prendê-lo, prende-lo três longos segundos. E, nesse momento de não respirar, saborear a mente cheia de vazio, quente, delicioso na ausência dos pensamentos inquietos de um dia normal. Sem hesitações. 

E depois fazê-lo sair. Suavemente. Até ao fim. E voltar à primeira forma, mas mais ausente de pesos desnecessários. E abrir os olhos para ver mais claro. Mais longe ou mais perto. Mas, sem dúvida, mais focado.

De vez em quando, todos precisamos de parar para respirar. O Blog também precisou. Foram três segundos demorados, mas necessários na sequência das últimas mensagens. E enchemo-nos deste ar. Do nosso bom ar.

Respire connosco. Vamos até ao Poço da moura? Só terá o som da cascata por companhia.

Vá: 1...2...3.

Bem-vindo de volta ao mundo. 
Agora que se renovou....vamos recomeçar?

Até já!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Mais um que recebeu a carta de chamada.

Mais um que recebeu a carta de chamada.
Era assim que o meu avô António costumava comunicar aos meus pais a morte de alguém. Fazia-o com um aperto de lábios no acabar das palavras, com uma sombra nos olhos das lágrimas que o homem nele não deixava cair. E o movimento da casa parava, para o ouvir. O silêncio sustinha-se no ar enquanto as palavras o atravessavam e as pessoas ficavam mais pesadas por segundos. 

Então?! perguntava o meu pai. E o meu avô desembaraçava as palavras das emoções para lhe contar o como, quando e por vezes também o quem, nas redes de parentes cruzados com nomes de terras e profissões que nos estão no sangue.

E a vida continuava. 
Lembro-me de anos em que se explicaram demasiados nomes. Outros houve em que se estenderam demasiadas bandeiras sobre madeira escura trabalhada. Em que muitas lágrimas se juntaram num gemido comum às outras tantas que se engoliram por vergonha e dever. As despedidas vinham em ondas, como antes haviam vindo as felicitações e os cuidados com as mães. Se houvesse espaço para esses.

Nesses anos, o medo disfarçado de riso saía do meu avô na forma de É pá, se andarem a distribuir as cartas lá pela serra, tu não aceites nenhuma! quando o meu pai ia ao café nas Cabeçadas. A piada partilhada estabelecia entre os dois (e os restantes que os ouviam) o entendimento de homens que se vêm a envelhecer. As mulheres da casa amparavam a conversa com o seu sorriso e os olhares cúmplices trocados, no respeito pelo espaço deles e haveria de acontecer uma refeição em que se contavam histórias de aflição ou malandragem sobre quem fora chamado. Nunca o perdão fácil e completo, mas antes a justiça de vários olhares sobre uma mesma vida. Todos teriam algo de bom e de mau para lembrar, cabia-nos encontrá-lo. Para que continuassem pessoas, não deuses, e pudessem manter-se connosco mesmo partindo. 

Do meu canto da mesa, procurava deixá-los esquecidos de mim na esperança de algum pormenor mais picante, daqueles em que as frases deixam de fazer sentido cortadas pelas gargalhadas e pela falta de conhecimento de quem ainda está a crescer. Os olhos no Sport Billy e os ouvidos à pesca das cores do mundo deles que também queria meu. E a vida continuava.

Cresci a respeitar os funerais como tributos a quem vai e a quem fica, a vê-los como uma parte da vida. Cresci a perceber que as lágrimas não medem a dor ou a falta honesta e que o vazio custa menos se nos despedirmos. E menos se encerrar nele a justiça duma velhice conquistada e saboreada. Enrugada. Despida de pressas de quem já não precisa de chegar a lado algum. Mas os funerais das nossas terras são cada vez mais pequenos e mais próximos. A cada nova vaga, encurta-se a distância para as cartas de chamada que não quero ver receber. Porque todos percebemos que a hora se vai aproximando, embora possa ainda estar a décadas. Mas são os lábios dos meus pais que se apertam agora...

E a vida continua. Como sempre. Para os que ficam. Com os que ficam. Pela minha vida passaram muitos que nunca conheci, de um tempo que não era o meu, que me ensinaram olhares que não teria se os tivessem deixado partir completamente. Se os tivessem esquecido. E agradeço aos que os lembraram, completos de bom e mau. Quero o mesmo para os meus. Mesmo que não possam ver o azul brilhante de água dos olhos do meu avô António, podem saber que era ele que não queria a carta de chamada. Porque gostava demasiado de viver...

Um abraço.
PS - Soube ontem, ao falar com a minha mãe, que o Necas da Roda Cimeira lia o Blog dos Amigos da Roda Fundeira. Um abraço especial à família dele da filha da Adelaide da Munha e do Adelino dos Brasileiros. Porque os meus pais souberam ontem às cinco da tarde que o Necas não voltaria a buzinar da estrada e a parar lá à porta para dois dedos de boa conversa, só porque é o que se faz na nossa terra. E sentiram a falta dele. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

BOM NATAL!!!

Last Christmas no ar. O rapaz continua preso ao coração perdido num Natal lá pelos anos 80. Do século XX, que ainda me esqueço que já sou velha. E divertiam-se tanto naquele cenário de neve, o mesmo que imaginei anos a fio até que na segunda década da minha vida lá consegui ver neve. Nada igual, claro, mas igualmente interessante: na estrada a caminho do Santo António das Neves, em fila, com aventureiros a tentar inversões de marcha em espaços para carrinhos a pilhas... Conseguimos também a proeza, num nível máximo de dificuldade considerando os 20 anos d
o Datsun preto, modelo digno de viatura de estado pela imponência e espaço ocupado...

All I want for Christmas is you... mais uma, a contagiar qualquer resistente ao espírito. Os olhos tresloucados de quem procura a última-caneca-oferecível-como-lembrança-de-Natal-cuidadosamente-estudada e percebe que está em competição com outros olhos igualmente fora de órbitas, em desvantagem por três passos de distância ao expositor...

Os saldos/promoções/ofertas/oportunidades/e afins de dia 23. Às seis da tarde. Com muita magia no ar assegurada pelas decorações penduradas a meio de Outubro, em pleno espírito natalício.
E claro, os encontrões, safanões, pisadelas, resmunguices, chamadas de atenção, olhares fulminantes ou desesperados dos desconhecidos que se cruzam em sofrimento partilhado. As filas...para entrar, para percorrer corredores, para participar na campanha, para pagar, para embrulhar, para cortar o papel para embrulhar em casa, para sair. Para respirar. Para saborear o espírito do Natal. 

E, claro, as campanhas de recolha de alimentos, donativos monetários, vestuário, brinquedos, medicamentos, para humanos e outros animais. Entusiastas. Significativas. Porque o espírito de bondade e cooperação se concentra na época natalícia. De Novembro a Dezembro, vá. No resto do ano não há fome ou carências que precisem de nós tão urgentemente como no Natal. 

E um qualquer forró brasileiro entra pelos corredores da grande superfície comercial, partindo de uma qualquer loja em que a comunicação com os clientes era tão insuportável que precisou de ser completamente boicotada. E o fumo das castanhas, novidade dos últimos anos em superfícies fechadas. Os cenários infantis, os Pais-Natal em catadupa entre montras, animadores de loja e o principal no largo central da grande superfície, suficientes para desenganar qualquer mente mais crédula numa multiplicação de pedidos repetidos à velocidade da fotografia de recuerdo.

E a Missa...onde se espiam todas as culpas de há duas horas atrás ao admitir que somos todos pecadores, e nos tornamos todos bons e com bons gestos para o nosso próximo. A um qualquer próximo anunciado em campanha e não necessariamente ao que vive triste e sozinho há cinco anos na porta ao lado da nossa. 

O melhor e o pior de nós, enquanto saboreamos bacalhau ou polvo, nas conversas de circunstância em que engolimos as críticas que noutra altura do ano nos saberiam a mel. Porque é Natal. E é para correr bem a noite. Mesmo quando desembrulharmos a caneca.
Estamos a dois dias do Natal. Ou já fizemos diferente, ou estamos nesta montanha russa de emoções, falhas e surpresas que nos dão o melhor e o pior dos outros. E que nos dão o melhor e o pior de nós mesmos. Ali, esfregado no nosso nariz, para conhecimento e alteração, com um ano inteiro de possibilidades de mudança até ao próximo Natal. Como no ano anterior. E o outro antes desse. Que nos trouxeram a hoje...

Faltam dois dias para o Natal. Embrulhou amor junto das "canecas" que ofereceu? Dispensou credos e politiquices, ofereceu só-porque-sim sem obrigações, lembrou-se dos seus mais distantes e mimou-os? Ajudou o próximo que descobriu ainda em tempo de praia? Sorriu ao desconhecido com que se cruzou na rua, apressado e sem brilho nos olhos, e desejou-lhe um "Bom Natal" sincero após o encontrão? Então está no caminho certo para o Natal. O verdadeiro. O que temos todos de recuperar urgentemente para vivermos o resto do ano. Para vivermos vivos e não em modo automático de atravessar dias. Para sermos o que queremos ser quando estamos possuídos pelo espírito do Natal. 

A todos... um BOM NATAL!!!
Um abraço.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Feliz Natal 2014


A árvore de Natal cá de casa está em construção. Está assim desde o seu primeiro ano e, por agora, a ideia é que irá ser o seu estado permanente. Percebe-se porquê: às bolas compradas inicialmente juntaram-se enfeites feitos pelos pequenotes e oferecidas por amigos, num conjunto capaz de chocar o olho mais apurado para estas coisas da decoração. Há quem diga que "talvez comece a ficar muito cheia"...


Aos meus olhos está perfeita. Quando a enfeitamos, tarefa que as crianças adoram, vamos lembrando de onde veio cada peça e, deste modo, acabamos por nos lembrar de visitas e amigos, de empenhos em artes diferentes e de momentos bons de guardar. Selecção feita, claro, às decorações de cumprir calendário, aquelas que a professora/educadora/monitora fez com (por) as crianças por receio de quebrar a tradição ou ofender algum encarregado de educação, mesmo que sem grande significado para os pequenos trabalhadores. Essas são chumbadas no momento em que chegam a casa. Ou, pronto, quando chega a altura de serem guardadas para o próximo ano. Na nossa árvore têm lugar apenas as que nos dizem alguma coisa.  E, por isso, para mim está perfeita. 

Lembro-me de fazer a árvore de Natal na Capela da Roda Fundeira com a minha tia Prazeres. E o Presépio, com pastores e ovelhinhas, com rios feitos de papel de alumínio e musgo, muito musgo. Se Jesus nasceu num deserto, o nosso era muito verde...E o menino era colocado na sua caminha no dia de Natal. Encolhia milagrosamente depois de ser beijado na Missa e ocupava o seu lugar na manjedoura, ladeado do burro e da vaca. Sempre que vejo um Presépio destes, mais que a correcção histórica, relembro o carinho de o construir com a minha tia, de se esperar pelo dia de Natal para o Menino nascer, de ter as mãos geladas do frio sem vento e de quase as queimar para aquecerem na lareira...

Estamos quase no Natal, novamente. Cá em casa o Presépio é uma peça única e não costumamos ir à Missa do Galo. Mas fazemos questão de viver os vários momentos - ir buscar a árvore e enfeites, montar e decorar, acender a iluminação pela primeira vez, preparar os embrulhos para oferecermos, o jantar de família e o desembrulhar dos presentes - com o maior carinho que conseguirmos juntar. Só isso torna esta época realmente especial.

A todos os amigos da Roda Fundeira e Relva da Mó, um Feliz Natal!
Um abraço.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Ernesto Claro: descanse em paz

A Roda Fundeira perdeu mais um dos seus filhos: Ernesto Claro. O funeral foi no dia 30 para o Cemitério da Roda. 

Todos guardamos a sua lembrança. Na minha, ele terá sempre uma boinita preta e um sorriso malandro na cara. 

Que descanse em paz. Os sentimentos à família.